Ensino on-line ganha importância para as escolas de negócios

A tecnologia é uma aliada na educação para permitir que escolas de negócios ampliem seu público, encurtem distâncias e ajudem profissionais a se manterem atualizados em todas as fases da carreira. Mas nada vai substituir a “magia” que acontece quando pessoas de diversos lugares se reúnem em uma sala de aula. Para Franz Heukamp, reitor da Iese Business School, esse é um elemento cada vez mais essencial em um mundo onde o entendimento entre países está sob ameaça. A visão de Heukamp resume as principais preocupações da escola, uma das mais renomadas instituições de ensino de negócios da Espanha e a melhor do mundo em cursos de educação executiva customizados, segundo o “Financial Times”. Ampliar o processo de internacionalização, oferecer mais cursos a profissionais que precisarão se atualizar ao longo da vida e entender o papel ideal que aulas digitais podem ter no ensino de negócios são algumas das prioridades do alemão, que assumiu o comando da escola em 2016. Heukamp conversou com o Valor quando esteve em São Paulo neste mês para a formatura da quinta turma do MBA executivo, oferecido na cidade desde 2012. Há cinco anos, o Iese criou uma unidade de inovação em ensino, que desenvolve novas ferramentas pedagógicas como uma sala de aula virtual que permite que participantes espalhados pelo mundo interajam ao mesmo tempo e a adoção de “desafios executivos” onde os alunos trazem problemas reais de suas empresas para serem resolvidos nas aulas. Heukamp percebe uma demanda maior, tanto em programas abertos quanto nos feitos sob medida para companhias, pelo formato de aprendizado baseado em projetos – um reflexo da maneira como as próprias empresas estão se reorganizando. O ensino on-line é um dos principais temas trabalhados pelo grupo. Uma das novidades sendo preparadas para o ano que vem é a criação de cursos de curta duração totalmente on-line, uma novidade para a escola. Serão cursos similares a programas de três a quatro dias de duração que já são oferecidos pela escola em análise de dados, digitalização dos negócios e outros temas demandados por profissionais e empresas em busca de atualização. A escola também tem criado mais programas híbridos, que misturam aulas presenciais e on-line, e aumentado a parcela a distância de programas como o MBA global, que existe desde 2001 e hoje tem 40% das aulas on-line. “No digital podemos oferecer mais personalização, analisar o conhecimento prévio do profissional e oferecer mais material se necessário”, diz o reitor. Heukamp defende que o aprendizado se divide entre a transmissão pura de conhecimento, o aperfeiçoamento de habilidades específicas e processos que mudam o estudante como pessoa. “Se sua ideia é só transmitir conhecimento, o on-line é a melhor coisa que você pode fazer. Se eu quero descobrir como fazer algo, provavelmente existe um vídeo no YouTube me ensinando”, diz. Mas adquirir habilidades é um processo que exige o feedback, e a interação entre os alunos é essencial para transformar o profissional no âmbito pessoal. “Tem alguma mágica que acontece na sala de aula que ainda é difícil de reproduzir se você não tem uma parte presencial”, diz. Para o reitor, essa interação tem papel ainda mais importante no processo de internacionalização da escola, onde o Brasil é chave. Além de manter um campus em São Paulo, o número de brasileiros têm crescido na turma do MBA em tempo integral oferecido na Espanha. Hoje eles são o terceiro maior grupo a compor a classe. No programa de MBA, aumentou o número de viagens curtas para outros países. Há cinco anos, Heukamp estima que elas eram 10, e hoje chegam a 30. Para ele, a ênfase no componente internacional existe não só para que os alunos absorvam conhecimento sobre como fazer negócios em outros países, mas para fomentar integração. “Vivemos em um mundo onde esse entendimento [entre países] está diminuindo. Há forças que querem separar, e nós estamos investindo em ajudar as pessoas a entenderem o que está acontecendo”, diz. A dificuldade maior de encontrar emprego nos EUA após a formatura, por exemplo, aumentou o interesse de alunos da América Latina e da Ásia por programas na Europa e no Iese, diz Heukamp. Recentemente, uma pesquisa do Gmac, associação que aplica o teste de admissão em MBAs, apontou queda no interesse de empresas americanas em contratar estrangeiros recém-saídos de cursos de MBA, em decorrência do futuro incerto da oferta de vistos H1B, para profissionais qualificados. Este ano, o Iese está lançando um programa para CEOs junto com duas escolas do Quênia e da Nigéria, voltado para presidentes de empresas africanas que fazem negócios com outros países do continente. Em setembro do ano que vem, inaugura também mais um MBA executivo, dessa vez em Munique, na Alemanha.