Qual a idade certa para alfabetizar?

Brasília, 06 de setembro de 2017

 

Durante a finalização do processo de
revisão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), observamos um impasse
quanto à questão da idade certa para a alfabetização de nossas crianças. O
Conselho Nacional de Educação (CNE), responsável por analisar e aprovar o
documento, defende o atual critério no qual o término do ciclo de alfabetização
se dá ao final do 3º ano, fase em que as crianças têm 8 anos de idade. Já o
Ministério da Educação (MEC) propôs a antecipação deste limite para o 2º ano,
quando os alunos estão com 7 anos. Mas afinal, o que é o melhor para nossas
crianças? Quando os alunos devem estar alfabetizados?
A revisão da BNCC tem sido discutida no CNE e em audiências públicas nos
Estados, e a previsão é de que o novo documento seja finalizado até novembro
deste ano. O acordo para o tal impasse seria de que o ciclo de alfabetização se
mantenha em três anos anos, mas garantindo que o letramento seja em dois. O
MEC deverá fazer a avaliação nacional de alfabetização ao final do 2º ano, e
não no 3º, como é atualmente. Como não há base nacional no Brasil, os
padrões estão estabelecidos pelo Pacto Nacional Pela Alfabetização na Idade
Certa (PNAIC) e pelo Plano Nacional de Educação (PNE) que estabelecem a
conclusão da alfabetização das crianças até o fim do 3º ano do Ensino
Fundamental, em escolas públicas e privadas. O MEC acertou ao tentar
adiantar o fim do ciclo de alfabetização para o segundo ano, mas o ideal seria
que isso ocorresse ainda no primeiro ano. Assim, em cinco anos teríamos
reduzido drasticamente o número de analfabetos funcionais no Brasil.
A decisão de antecipar o término do ciclo de alfabetização do terceiro para o
segundo ano nos remete a uma posição realista, do ponto de vista social, indo
além da questão apenas educacional. Ocorre que as crianças devem ser
alfabetizadas no primeiro ano, e as poucas que não conseguem atingir a
alfabetização, precisam ser mantidas neste processo de aprendizagem para
que amadureçam. Nessa idade – com um bom trabalhado na educação infantilteremos
ao fim do primeiro ano, não mais do que 10% de estudantes que
chegam sem ler a esta fase. Deste pequeno percentual, temos crianças que,
em sua maioria, são imaturas, ou nascidas no final do ano. E, ainda, temos de
considerar alguns casos em que já é possível identificar a manifestação de
alguma das mais de 25 síndromes ou transtornos humanos.
O grande problema social da Educação Básica que enfrentamos é que, com o
término do ciclo de alfabetização ao final do 3º ano, temos aumentado
significativamente o número de analfabetos funcionais, pois as avaliações têm
demonstrado que aproximadamente 50% dos nossos estudantes chegam ao
quinto ano do Ensino Fundamental sem conseguir ler um texto de 5 linhas e
contar o que entendeu. Aí residem as consequências desta decisão de se
deixar para depois, de empurrar todas as crianças para as séries seguintes,
mesmo que sem condições e despreparadas para assumir a nova fase escolar.
Fundamentalmente, passar o aluno do primeiro para o segundo ano sem que
ele esteja devidamente alfabetizado, é uma desumanidade com o futuro das
nossas crianças, pois com essa atitude comprometemos a vida escolar de um
grande número de estudantes.
Além do analfabetismo funcional como consequência deste adiamento da
alfabetização, temos de observar que na segunda etapa do Ensino
Fundamental, temos um grande número de abandonos. E a explicação é muito
simples! Nessa etapa, em todas as disciplinas, os conhecimentos são
apresentados em forma de problema ou enunciado. Para compreender o que se
pede, o estudante precisa, necessariamente, saber ler e interpretar. Entretanto,
como mais de 50% não está devidamente alfabetizado, as escolas acabam
minimizando a profundidade dos conteúdos e conhecimentos, para não terem
um grande número de reprovação, acima do aceitável. Com isso, prejudicamos
a todos os estudantes com este nivelamento inferior, e mantemos o “Pacto da
Mediocridade” na nossa Educação.
Soma-se a isso, o grande medo de prefeitos e governadores de que não
conseguirem manter -ou de terem diminuídas- as médias (que já são baixas) de
suas regiões nas avaliações de ensino. Então, notamos que é mais fácil manter
as aparências, continuamos empurrando nossa juventude para a escuridão.
* Por Ademar Pereira – Presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares
(FENEP)